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Memória em retrato a partir de Andy Warhol e Iberê Camargo
Fotografia: Memória em retrato a partir de Andy Warhol e Iberê Camargo

 

por Sérgio Lima

 

Resumo

 

Este trabalho tem como objetivo a criação de um quadro com colagens fotográficas da vida de uma idosa através do resgate das suas próprias fotografias. A pesquisa apresenta as experiências e as transformações ocorridas na identidade humana, revisitadas através de um inventário visual. Esta  produção é composta por três eixos correlacionados, a fotografia, a colagem e a pop art, explorando as transformações ocorridas da infância à velhice em uma idosa, criando uma atmosfera de reflexão histórica e social em torno da imagem fotografada, que é compreendida mais que os conceitos. Pretende-se mostrar as modificações ocorridas na vida dessa idosa utilizando a retratação fotográfica como suporte comunicacional. A montagem das fotos da idosa nos direciona ao recorte e à repetição, assim como na obra usada como referência visual para a elaboração deste trabalho, “25 Marilyns” de Andy Warhol. A obra de Iberê Camargo, em particular os vários autorretratos que o artista realizou ao longo de sua vida, serviu de inspiração para o tema exposto nesta monografia.

 

Palavras-chave:   Fotografia;  Colagem; Pop Art; Memória em retrato.

   

Abstract       

 

This work has as objective the creation of a picture with photographic colagens of the life of an old age through the rescue of her proper photographs. The research presents the occured experiences and transformations in the identity human, revisited through a visual inventory. This production is composed for three correlated axles: the photograph, the collage and pop art, exploring the occured transformations of infancy to the oldness in an old age, creating an atmosphere of historical and social reflection around the photographed image, that is understood more than the concepts. It is intended to show the occured modifications in the life of of old age using the photographic retraction as comunication support. The assembly of the photos of the old age directs in them to the clipping and the repetition, as well as in the used work as visual reference for the elaboration of this work, “25 Marilyns” from Andy Warhol. The work from Iberê Camargo, in particular some self-portrait that the artist carried through throughout its life, served of inspiration for the subject displayed in this monograph.

 

Keywords:   Photography; Collage; Pop Art; Memory in picture.

 

 

 

SUMÁRIO

 

 

1          INTRODUÇÃO................................................................................................10

2          DESENVOLVIMENTO PRÁTICO E TEÓRICO..............................................15

2.1      FOTOGRAFIA.................................................................................................19

2.2      COLAGEM.......................................................................................................21

2.3      POP ART.........................................................................................................26

3          CONCLUSÃO..................................................................................................27

4          REFERÊNCIAS.................................................................................................29

5        APÊNDICE.......................................................................................................31

 

INTRODUÇÃO

 

O presente trabalho propõe a criação de um quadro com colagens fotográficas da vida de uma idosa através do resgate das suas próprias fotografias.

A obra a ser criada será intitulada "Inventário[1] Visual".  A imagem produzida será impressa em papel fotográfico, em preto e branco com moldura em forma de caixote, na cor branca.  A obra será visualizada através de um vidro.  As dimensões   do quadro serão de 60 cm de largura  por 43 cm de altura e 2 cm de profundidade.

O tema "Fotografia: Memória em retrato a partir de Andy Warhol e Iberê Camargo" busca refletir as transformações ocorridas na vida de uma pessoa idosa, utilizando a retratação fotográfica como suporte comunicacional, revisitando a memória e as experiências vividas por esta pessoa através das décadas, buscando os registros imagéticos das transformações ocorridas em um contexto sócio-político-econômico.

Roland Barthes (1984, p.29) faz citações pertinentes ao tema:

 (...) não paro de me imitar a mim próprio e é por isso que sempre que me fotografam (...) sou invariavelmente assaltado por uma sensação de inautenticidade, por vezes de impostura (como alguns pesadelos podem provocar).

Perante essa transformação devido à presença de um elemento não natural – a máquina fotográfica – Barthes (1984, p. 29 e 30) completa:

Perante a objetiva, eu sou simultaneamente aquele que eu julgo ser, aquele que eu gostaria que os outros julgassem que eu fosse, aquele que o fotógrafo julga que sou e aquele de quem ele se serve para exibir a sua arte.

Com o objetivo de direcionar a pesquisa, propõe-se como meio de avaliar os processos da memória imagética da idosa o uso de suas próprias fotografias.

O eixo desta pesquisa será a contribuição que o contato do observador com as diferentes produções imagéticas oferece para a alteração das nossas visões da realidade.

Busca-se referência na obra do artista Iberê Camargo, por sua relação com o passado como um mundo de memórias, principalmente memórias da infância e da sua região natal. Essas lembranças pessoais são exteriorizadas em suas obras como um mundo isolado e voltado para si, mas ao mesmo tempo, ligado a outros mundos pelos seus traços inconfundíveis.

Iberê Camargo realizou vários autorretratos. Para ele, tratava-se de uma busca, ou seja, um questionamento interior. De acordo com Lisette Lagnado (1994, p. 32):

Como modelo me transmuto em forma. Sou, então, pintura. Ao me retratar, gravo minha imagem no vão do desejo de permanecer, de fugir ao tempo que apaga os rastros. O autorretrato é uma introspecção, um olhar sobre si mesmo. É ainda interrogação, cuja resposta é também pergunta. Essa imagem que o pintor colhe na face do espelho, ou na superfície tranqüila da água, - penso no Narciso de Caravaggio – revela como ele se vê e como olha o mundo. (...) Não tenho presente quantos autorretratos pintei. Se retratar-se revela narcisismo, todos os pintores o são. Na sucessão de minha imagem no tempo, ela se deteriora como tudo que é vivo e flui. Muitas vezes, me interroguei diante do espelho. No passar do tempo, nos transformamos em caricaturas.

Figura 1 - CAMARGO, Iberê - Autorretrato - 1984 - 25cm x 35cm - Óleo sobre madeira - Coleção Maria Coussirat Camargo - Fundação Iberê Camargo - Porto Alegre. Disponível em <http://www.iberecamargo.org.br>. Acesso em: 21/03/2011.

 

Para a produção visual deste trabalho escolhe-se também Andy Warhol como referência, por tratar-se de um artista inovador e instigante.

            Segundo Marco Giannotti (2004), Warhol foi a figura mais conhecida e mais controvertida da Pop Art, mostrando sua concepção da produção mecânica da imagem em substituição ao trabalho manual numa série de retratos de ídolos da música popular e do cinema, como Elvis Presley e Marilyn Monroe.

A obra de Andy Warhol usada como referência para este trabalho é "25 Marylins" (1962), que deixa evidentes as diferenças, sutis ou marcantes, entre os seus elementos e a repetição de imagens de modo a constituir um padrão ou sistema.

 

 

Figura 2 - WARHOL, Andy - 25 Marylins - 1962, screenprint , coleção de Jordan Schnitzer Family Foundation e The Andy Warhol - foundation for the Visual Arts - Londres. Disponível em <http://www.worldgallery.co.uk/art-print/25-Marilyns%2C-1962-%28giclee%29-134619.html>. Acesso em: 28/02/2011.

 

Para Marco Giannotti (2004), os autorretratos de Warhol são exemplos de processos de ocultamento do sujeito, revelando a arte e escondendo o artista, reproduzindo sua imagem de modo mecânico e impessoal, como se já não estivesse presente ao pintar a si mesmo.

 

(...) seus retratos eram feitos a partir das fotos que tirava em               máquinas automáticas instantâneas e sua imagem muitas vezes aparecia duplicada, seja em posições de perfil e frontais, seja como uma sombra incorporada à imagem, como um duplo. (GIANNOTTI; MARCO, 2004, p.117)

 

Através da obra de Andy Warhol, traz-se à tona a discussão do próprio valor da fotografia como meio de divulgação da imagem e a sua reprodutibilidade, permitindo indefinidas fórmulas com a mesma imagem. O artista, ao reproduzir imagens, deixa evidente esse questionamento.

 (...) não há mais semelhança porque não há mais um único original, apenas uma imagem que reflete outra imagem. Raramente se percebe este sentido corrosivo na obra de Warhol. Contudo, uma obra de arte é sempre capaz de resistir à sua reprodução. (GIANNOTTI; MARCO, 2004, p.119).

 

            Os conceitos motivadores deste trabalho são: fotografia, colagem e Pop Art.

A Pop Art é um movimento artístico que emergiu no final da década de 1950 e início da década de 1960, sobretudo no Reino Unido e nos Estados Unidos. Essa denominação foi empregada pela primeira vez em 1954, pelo crítico de arte britânico Lawrence Alloway, para designar os produtos da cultura popular de poderosa influência na vida cotidiana na segunda metade do século XX. Em oposição ao expressionismo abstrato, que predominava desde o final da segunda guerra, a Pop Art pregava um retorno à arte figurativa, trabalhava com signos massificados da publicidade, das histórias em quadrinhos, das imagens televisivas e do cinema. Transformando o real em hiper-real, ironizava o massacre da sociedade pelos objetos de consumo.

David Mccarthy (2002 p.14) em seu livro “Arte Pop” diz que:

(…) no decorrer de uma década inteira, a arte pop foi um dos movimentos centrais na arte inglesa e norte-americana, firmando vários talentos, afetando diretamente o curso da arte posterior todo o mundo e reconfigurando nosso  entendimento da cultura do século XX (….)

 

            Neste trabalho, a montagem das fotos da obra nos direciona ao recorte e à repetição da vida de uma pessoa em situações diferentes, e também às transformações ocorridas através das décadas, passando por vários processos, assim como na arte.

 

(...) uma imagem, assim como o mundo, é indefinidamente descritível: das formas às cores, passando pela textura, pelo traço, pelas gradações, pela matéria pictórica ou fotográfica até as moléculas ou átomos. O simples fato de designar unidade, de recortar a mensagem em unidades passíveis de denominação, remete ao nosso modo de percepção e de “recorte” do real em unidades culturais. (JOLY; MARTINE, 1996, p. 73)

            Objetiva-se com esta produção visual delinear uma cronologia no processo de transformação de uma idosa, analisado através de seus registros imagéticos a partir de uma colagem de fotografias, localizando-se no tempo e no espaço estas transformações e registrando-se as lembranças através das imagens.

Segundo JOLY, (1996, p. 13) compreendemos que a imagem indica algo que, embora nem sempre remeta ao visível, toma alguns traços emprestados do visual, e de qualquer modo, depende da produção de um sujeito: imaginário ou concreto, a imagem passa por alguém que a produz ou reconhece.

A fotografia tem sua história ligada aos tempos antigos, e suas raízes estão na memória. A retratação seria compreender uma imagem e fazer sua releitura.

Como diz RAHDE (1999, p. 82):

A compreensão e a releitura do universo das imagens possibilita o encontro de caminhos diversificados, direcionando-nos para novas reflexões sobre o processo criativo das muitas formas imagísticas, relacionando conceitos e sentimentos, buscando a ciência como um dos pontos de soluções de problemas formais, imaginando novas interferências, pois é com a imaginação que o homem vem construindo o mundo para a transformação do universo.

Para Barthes (1984 p.29), a fotografia é um composto de três práticas, três emoções ou três intenções: "fazer, suportar e olhar.

Atravessando décadas, a arte do retrato passa por modificações de acordo com a sociedade de cada época, simbolizando poder com poses formais, descontração, revelando costumes, comportamentos, rotinas e sentimentos do homem e de seu tempo.

Com essa afirmação:

A fotografia representa esse momento deveras sutil em que, a bem dizer, não sou nem um sujeito nem um objeto, mas essencialmente um sujeito que sente que se transforma em objeto; vivo então uma micro-experiência da morte (do parêntese), torno-me verdadeiramente espectro. (BARTHES; ROLAND, 1984, p. 29). 

            Barthes explica o momento em que tudo pára na fotografia, o momento em que o mortal passa a imortal e se torna conteúdo num suporte físico.

A junção destes três elementos - a fotografia, a colagem e a  Pop Art   - na composição desta obra se respalda nos conceitos de montagem e repetição, analisados ao longo do curso de Pós-Graduação "Artes Visuais: Cultura e Criação" do SENAC/MG.

As imagens para o inventário visual serão pesquisadas a partir do acervo fotográfico da pessoa idosa a ser retratada.

A colagem das fotografias e a impressão serão feitas com a utilização de programa de edição de imagens e impressão, a partir de um computador.      Serão utilizadas na criação visual as cores planas em que os tons mudam bruscamente, sem passos graduais entre um e outro.  A maximização e o recorte das fotos serão apresentados em um quadro retangular, com moldura branca, protegidas por um vidro, com colagens fotográficas da vida de uma idosa ,  representando suas vivências e transformações da década de 40 aos dias  de hoje.

A obra a ser criada evidencia sua importância ao demarcar cronologicamente as experiências e as transformações ocorridas na vida  dessa idosa.  Experiências  revisitadas através de um inventário visual, onde se explora as transformações ocorridas da infância à velhice, criando-se uma atmosfera de reflexão histórica e social em torno da imagem. Debray (1993, p.13) explica que uma palavra pode ter vários sentidos, mas suas ambivalências são identificáveis num dicionário. Uma imagem é para sempre enigmática. Não é possível se pretender que um texto transmita tudo o que se imagina; com uma imagem talvez seja possível. O inconsciente que funciona por imagens, permite associações que a consciência que escolhe as palavras, não possibilita.

 

2 - DESENVOLVIMENTO PRÁTICO E TEÓRICO

 

A proposta de criação visual para este Trabalho de Conclusão de Curso foi a produção de um quadro com colagens fotográficas da vida de uma idosa O direcionamento da obra se dá a partir da análise visual das fotografias desta idosa. Através dessas imagens, busca-se resgatar suas experiências, e também a constatação das modificações ocorridas em nossas percepções da realidade.

Segundo Joly (1996, p. 10),

"(...) de um lado lemos imagens de uma maneira que nos parece totalmente ‘natural’, que, aparentemente, não exige qualquer aprendizado e, por outro, temos a impressão de estar sofrendo de uma maneira mais inconsciente do que consciente da ciência de certos iniciados que conseguem nos manipular, afogando-nos com imagens em códigos secretos que zombam de nossa ingenuidade."

 

 A idosa que terá suas imagens fotográficas utilizadas nesta produção visual se chama Oneida Torres, 72 anos, dona de casa, viúva, mãe de  quatro filhos, ativa, participante de grupos da Terceira Idade.

Após a idosa ter aceitado o convite para participar deste trabalho, inicia-se uma fase de diálogos e consequentemente o resgate de suas  fotografias do  seu baú.  Para ela, participar desta produção visual é uma oportunidade de relembrar sua história através de suas fotografias, mas, principalmente, um meio de agregar valores aos seus conhecimentos e também uma  forma  de repensar sua vida através de uma obra de arte.

Segundo HERNÁNDEZ, (2000, p. 53).

 

(...) os elementos da cultura visual, são, portanto, objetos que levam a refletir sobre as formas de pensamento da cultura na qual se produzem. Por essa razão, olhar uma manifestação artística de outro tempo ou de outra  cultura implica uma penetração mais profunda do que a que aparece          no meramente visual: é um olhar na vida da sociedade, e, na vida da sociedade, representada nesses objetos. Essa perspectiva de olhar a produção artística é um olhar cultural. Analisando através desta argumentação, o olhar sempre irá transformar junto com nossas mudanças.

 

Para facilitar o processo de criação desta obra foi necessária a junção de uma pesquisa teórica, a seleção das fotos que a idosa fez sob minha orientação e a análise das imagens selecionadas.

Joly (1996) acredita que uma iniciação mínima à análise da imagem pode ajudar os indivíduos “a escapar dessa impressão de passividade e até de intoxicação”, bem como oferecer melhores condições de análise e compreensão “em profundidade de uma das principais ferramentas de comunicação contemporânea”.

            Objetiva-se, ao longo deste processo criativo, conceber uma obra capaz, não só de revelar uma produção visual criativa, mas também  de  auxiliar  no  processo de aquisição de conhecimento da idosa.

Resgatando as lembranças retratadas da idosa de uma forma lúdica,  dá-se a ela a oportunidade de participar da elaboração deste trabalho e conhecer os fundamentos  teóricos  desta  produção visual.

 Segundo John Berger (1996), as imagens são feitas com o intuito de evocar a aparência de algo que esta ausente, mas, pouco a pouco, torna-se óbvio que essas imagens podem sobreviver àquilo que representam.

Pretende-se estabelecer uma relação entre a fotografia e a memória. Acredita-se que ao relacionar estes dois elementos seja possível uma interpretação mais rica da imagem retratada, bem como, uma melhor compreensão e identificação da intenção do criador da obra e da mensagem implícita da imagem.

Arnheim (1976) julga importante para o processo da percepção, o processo cognitivo e a memória visual. Para o autor, o processo cognitivo está diretamente ligado  à  capacidade de combinar informações provenientes de fontes distintas. A memória visual está ligada à capacidade de armazenar informação visual. O sistema de memória humana não é armazenado como uma colação quase infinita de categorias visuais. Os conceitos visuais propriamente ditos, são responsáveis por  processos tão vitais para o ser humano como o reconhecimento do entorno das criaturas e objetos que o povoam. Não é sensato desvincular o papel da memória do processo da percepção globalmente considerado.

Durante a seleção das fotos, a idosa Oneida Torres vivenciou o processo de análise destas imagens, constatando que a sua percepção visual não era um processo de associação de elementos soltos, mas sim a junção de informações organizadas, pela existência de um isoformismo. Segundo POWELL e DIMAGGIO (1991: p. 68), isoformismo são pressões normativas originárias basicamente da profissionalização que os autores interpretaram como um esforço coletivo de membros de uma ocupação, em definir métodos e condições dos seus trabalhos, controlando e estabelecendo bases cognitivas e legitimadas para suas autonomias ocupacionais.

O primeiro passo foi orientar a idosa que selecionasse as fotos e as organizasse em ordem cronológica por décadas.

Percebe-se o poder das imagens de aguçar suas lembranças, fazendo-a voltar no tempo. Para ela, essa volta ao passado é considerada uma oportunidade  de constatar o quanto sua vida mudou para melhor.

 

Segundo JOLY (1996 p. 73), o homem através de sua trajetória histórica vem propondo possibilidades de leitura de seu mundo. Engendrando signos, formas de linguagem pelas quais o homem interpreta o globo e situa-se nele, provocando reticências sob vários aspectos e proposta de uma análise ou “explicações de imagens”.

Uma etapa  importante na produçao deste trabalho foi ouvir os comentários da idosa sobre as imagens fotográficas selecionadas. Para ela, as imagens revelam além do que consegue verbalizar, as palavras se tornam insuficientes para expressar sentimentos de recordação.

SANTAELLA E NOTH (1999) referenciam que para se reconhecer e interpretar mensagens visuais importa o discurso verbal. A separação das duas dimensões, verbal e visual, não é tão radical quanto tem se afirmado, a imagem necessita da linguagem verbal para ser esmiuçada, refletida, compreendida. Assim como a expressão verbal pode ser incompleta, tornando-se, muitas vezes, mais rica associada à imagem, esta, por sua vez, encontra-se na busca de uma reflexão consciente, que somente é possível através da palavra.

Segundo a idosa, a descrição das imagens revela as transformações ocorridas em sua vida. Ao longo dos anos, o conhecimento foi ampliado, ela tornou-se mais crítica em relação a si própria, seu gosto se aprimorou, - provocando mudanças no modo de vestir-se, alimentar-se e  divertir-se – adquiriu, enfim, novos hábitos e costumes com o passar do tempo.  

A imagem atinge de forma mais direta os sentidos humanos. Compreendem-se as imagens mais rapidamente que os conceitos. Explica DEBRAY (1993 p.17):

 

(...) os gregos eram apaixonados pela vida pela visão, a ponto de confundi-las: para o homem grego, viver não é respirar, como para o homem atual, mas ver; assim morrer é perder a vista. Pior do que castrar o inimigo é vazar-lhe os olhos. A magia representada e proposta pela imagem eram fundamentalis e fazia parte da essência grega.

 

 

Para a criação do quadro com colagens fotográficas, que representam as vivências e transformações ocorridas da década de 40 aos dias de hoje na vida  da idosa, foram utilizados: relatos orais, fotografias, softwares gráficos e digitalizador de imagens. Com  este material elaborou-se um quadro em preto e branco com as fotos digitalizadas.  O quadro produzido mostra imagens que revelam a passagem do tempo na face da idosa.              

 

2.1 Fotografia

 

A fotografia é o processo de obter imagens através da ação da luz. Origina-se das descobertas realizadas desde a Antigüidade, na combinação de dois fenômenos distintos. O primeiro pertence ao campo da física, no estudo da ótica na captação de imagens, e o outro à química, pela capacidade que certas substâncias têm de reagir aos efeitos da luz. A primeira fotografia de que há registro em  (preto e branco) é de 1826 e o seu autor foi o francês Joseph Nicéphore Niépce. 

A sua fotografia de 1826 é considerada a primeira foto permanente do mundo e foi feita sobre uma placa de estanho, coberta com betume branco e exposta durante cerca de 8 horas à luz solar.

Dubois (1994) comenta que Plínio faz referência à descoberta da fotografia com a história da arte, sendo ambas vinculadas aos estudos da sombra, fato que o levou a contar a história a seguir.

Havia a filha de um oleiro de Sícion, chamado Dibutades, apaixonada por um rapaz, que um dia teve que partir para uma longa viagem. Quando na cena de despedida, os dois amantes estão num quarto iluminado por um fogo, que projeta na parede a sombra dos jovens. A fim de conjurar a ausência futura de seu amante e conservar um traço físico de sua presença atual, nesse instante precioso, todo tenso de desejo e medo, à moça ocorre a idéia de representar na parede com carvão a silhueta do outro aí projetada: no instante derradeiro e flamejante, e para matar o tempo, fixar a sombra daquele que ainda está ali, mas logo estará ausente (DUBOIS, 1994, p. 117 -118)

Em 1839 Louis Daguerre divulgou o primeiro processo fotográfico industrial, o daguerreótipo, que se utiliza da propriedade da prata de tornar-se enegrecida quando é exposta a luz e assim formar uma imagem. 

Utilizada inicialmente apenas para registrar cenas das pessoas sozinhas, entre os amigos ou em família, a fotografia passava agora a constituir uma grande e verdadeira história familiar. “(...) uma série portátil de imagens que testemunha a sua coesão. Sejam quais forem as atividades fotografadas, o que importa é que as fotografias sejam tiradas e conservadas com carinho” (SONTAG, 1986, p.18).

            A técnica foi evoluindo e em 1871 surge a fotografia instantânea que veio revolucionar por completo as expressões artísticas. Até então a pintura era o único processo capaz de imitar a realidade visível como se fosse uma imagem fotografada.

Com o aparecimento da fotografia a pintura pôde aspirar a outros objetivos que não fossem a exata reprodução do que os olhos vêem.

Sabe-se da importância do papel desempenhado pela fotografia na preservação da memória, e de sua capacidade de conceber um novo ponto de vista estético a partir de  singulares ângulos de visão.

Para Santaella e Nöth (1999, p. 120), sob qualquer forma de observação, angulação, enquadramento, proximidade ou distância, a imagem fotográfica  “é sempre um feixe de indicadores da posição ideológica, consciente ou inconsciente, ocupada pelo fotógrafo em relação àquilo que é fotografado” .

A análise minuciosa das imagens da idosa  ocorre a partir do trabalho com uma série de signos que representam sua memória imagética. 

Nas análises realizadas com as imagens da personagem da obra, Oneida Torres, a idosa argumenta que sofreu influências, pois em cada fotografia estava inserida em um determinado tempo de sua vida. À medida que passava por mudanças sócio-culturais, recebia novas influências, que se refletia  em seu modo de ver o mundo. Martins, Picosque e Guerra (1998, p. 61) enfatizam esta questão, ao dizerem que:

A verdade é que a arte não envelhece porque o ser humano que a contempla é sempre novo, ou terá um olhar outro e estará realizando uma infinidade de leituras porque infinita é      a capacidade do homem de perceber,   sentir, pensar, imaginar, emocionar-se e construir significações diante das  formas artísticas.

 

2.2 Colagem

 

A colagem está nos limites da pintura e da escultura. Sua utilização é feita a partir de diversos materiais sobre um suporte, seja ele madeira, pedaços de jornal e objetos. Ela foi considerada arte a partir do século XX  quando a técnica passa a ser empregada em diversos movimentos e escolas artísticas, promovendo sentidos muito variados. O movimento cubista  utilizou-a com frequência, artistas  como Georges Braque e Pablo Picasso desenvolveram diversas experimentações com a técnica da colagem.

No início do século XX, com as guerras e a produção tecnológica a todo vapor, os temas mais frequentes utilizados nas obras realizadas com a técnica da colagem estavam relacionados  à violência, velocidade e tecnologia. Não apenas o contexto histórico serviu como referência a esses artistas, mas também faces e imagens abstratas estavam presentes em muitas de suas obras. Devido as característica peculiares da colagem, sua expressividade é única, e distante de todas as outras técnicas, ela possibilita  uma pluralidade artística, passível de grandes transformações.

Ao realizar a colagem das fotos, o trabalho proposto começa a se esboçar. Segundo David McCarthy (2002, p.14), (...) a colagem como procedimento técnico tem uma história antiga, mas sua incorporação na arte do século XX, com o cubismo, representa um ponto de inflexão na medida em que liberta o artista do jugo da superfície, ao abrigar no espaço do quadro elementos retirados da realidade - pedaços de jornal e papéis de todo tipo, tecido, madeira, objeto e outros.

O uso da técnica da colagem, nesta produção, possibilita que a partir de fotografias, inseridas lado a lado, de diferentes períodos da vida de uma idosa, seja criada uma nova imagem.

Esta pluralidade pode ser constatada nesta criação visual, pois a partir das fotografias de uma mesma pessoa, em momentos e situações distintas, todas as cores das imagens foram transformadas em cores planas. Esse procedimeto resultou na criação de imagem uniforme, o que contribuiu para acentuar a fisionomia da idosa.

Ramalho e Oliveira (2005, p. 19) afirma que para penetrar na complexidade da imagem é necessário, inicialmente, explorar o texto (imagem) tentando definir a linha ou as linhas que determinam sua macroestrutura, também conhecida como estrutura básica. Definida a estrutura, devem-se identificar os elementos construtivos da imagem, tais como linhas, cores, planos, dimensões, volume e textura. Esses elementos mínimos constitutivos e significantes se estabelecem em relações e articulações entre si ou em blocos de elementos, constituindo procedimentos relacionais da imagem.

 

 

 

Em outro momento, Ramalho e Oliveira (2005) comenta que o leitor ou observador, uma vez diante de uma imagem – um texto estético, passa a ter autonomia sobre sua leitura. Em sua opinião, a imagem passa a falar por si mesma, independente do que seu autor tenha desejado dizer (expressar), uma vez que o leitor, munido de seus sentidos e de sua capacidade cognitiva, trilha os caminhos visíveis da imagem (plano da expressão), que se cruza com a significação (plano do conteúdo). Essa sequência é um referencial mínimo para a leitura da imagem, conforme conclui a autora.

Depois de concluída a criação visual, com as fotos dispostas na tela do computador, iniciou-se o processo de recolocação da ordem cronológica das fotos e análise das mesmas. Trabalham-se os tons de brilho, contrastes e saturação das fotos. Transpõem-se as fotos coloridas em preto e branco para dar uma maior uniformidade e detalhes para cada fotografia.

A simples transformação da imagem colorida para preto e branco possibilita uma nova interpretação da foto.

A finalização do processo criativo se dá a partir da formação do produto em imagens mentais, modificando-se e alterando-se mentalmente a estrutura da obra,  busca-se uma leitura mais condizente ao conceito criado. Segundo DONIS, em seu livro Sintaxe da Linguagem Visual  (2000, p. 5):

(...) Visualizar é ser capaz de formar imagens mentais. Lembramo-nos de um caminho que, nas ruas de uma cidade, nos leva a um determinado destino, e seguimos mentalmente uma rota que vai de um lugar a outro, verificando as pistas visuais, recusando o que não nos parece certo, voltando atrás, e fazemos tudo isso antes mesmo de iniciar o caminho. Tudo mentalmente. Porém, de um modo ainda mais misterioso e mágico, criamos a visão de uma coisa que nunca vimos antes. Essa visão, ou pré-visualizacão, encontra-se estreitamente vinculada ao salto criativo e a síndrome de heureca, enquanto meios fundamentais para a solução de problemas. E é exatamente esse processo de dar voltas através de imagens mentais em nossa imaginação que muitas vezes nos leva a soluções e descobertas inesperadas.

 

 2.3 Pop Art

 

Considerado um dos maiores movimentos da arte do século XX, caracteriza-se por usar temas e técnicas provenientes da cultura popular de massa, como televisão, cinema, publicidade e revistas em quadrinhos. 

Segundo Marie-Loup Sougez, (1994 p.13), (...) a fotografia foi uma das técnicas mais utilizadas por Andy Warhol e podemos defini-la como forma de fixar e reproduzir, através de reações químicas em superfícies devidamente preparadas, as imagens obtidas numa câmara escura.

O movimento foi marcado por representações de símbolos, objetos e pessoas comumente encontradas na cultura popular, desmitificando que a arte era para poucos.  

Segundo David McCarthy, em sem livro - Art Pop (1984, p. 20):

(...) A cultura de massa, o gosto popular, o kitsch, coisas por muito tempo descartadas pelas belas-artes, foram a fonte de inspiração e provocação dos temas centrais da arte pop. Rejeitando a idéia de que a arte e a vida deveriam ficar separadas, passaram a usar os objetos produzidos em grande escala e imagens fotográficas de jornais e revistas para fazer uma barulhenta conexão entre a arte e o consumismo mundial do pós guerra.

 

A imagem da atriz Marilyn Monroe em telas de cinema ou revistas  é facilmente reconhecida. De modo quase imperceptível   observam-se   mudanças ao longo da sequência das imagens da obra “25 Marylins” de Andy Warhol.

Essas modificações, obtidas de modo sutil, através da presença de cores de diferentes tons nas fotografias da face da atriz, não interferem  na imediata identificação de sua figura. Esse efeito visual, criado pelo artista, nos sugere a possibilidade de tratar-se de diferentes fotos.

            Segundo BAITELLO JUNIOR (2005, p. 53) "(...) Em seu lugar impõe-se uma Eco-Logia, ou o estudo dos efeitos das imagens em eco. Esta teria como tarefa ocupar-se da lógica da “serial imagery society”, profetizada pela “Marilyn Monroe” de Andy Warhol; e a ela caberia analisar seus desdobramentos e seus possíveis cenários."

            Nesta produção visual, busca-se, através das imagens fotográficas da Idosa Oneida Torres, fazer alusão às figuras populares da segunda metade do século XX   utilizadas comumente como tema pela Por Art. 

        O conceito de repetição presente na obra “25 Marilyns”, também pode ser observado neste trabalho através das fotos (coladas lado a lado) de uma mesma pessoa. Os diferentes períodos da vida da idosa, são mostrados a partir de várias   imagens, revelando as transformações ocorridas em seu rosto.

            Segundo AUMONT, (1993, p. 90). “A imagem é, pois, tanto do ponto de vista de seu autor quanto de seu espectador, um fenômeno ligado também à imaginação”   

 

3. Conclusão

Figura 15 –  Obra finalizada - LIMA, Sérgio - Inventário Visual - 2011 - 60cm x 43cm - colagem fotográfica - Belo Horizonte - MG.

 

Ao analisar o quadro elaborado  a partir de fotografias da vida de uma idosa  para a  proposta inicial, a utilização da técnica de  colagem fica evidenciada. A repetição de fotografias cria a possibilidade de se estabelecer relações entre a imagem produzida e a obra “25 Marilyns” de Andy Warhol.

Acredita-se que as imagens mostradas nesta produção visual de diferentes períodos da vida de uma idosa, possam manter conexões com a obra de Iberê Camargo através da proposta da produção de autorretratos. A obra do referido artista se caracteriza por sua relação com o passado como um mundo de memórias, por isso, a visualidade deste trabalho também foi construida a partir de fragmentos da memória da idosa Oneida Torres. Nesta produção visual, os retratos dela evidenciam essa relação com o passado. O “passar” do tempo é revelado através da composição das imagens fotográficas que apresentam as mudanças ocorridas em sua face.     

O resultado obtido foi considerado satisfatório, pois possibilitou estabelecer mais narrativas da vida da idosa.

Conclui-se que a partir deste trabalho é possivel uma reflexão sobre as transformações ocorridas na vida de uma pessoa idosa, utilizando a retratação fotográfica como suporte comunicacional.

  

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V- APÊNDICE A -   Autorização de uso de imagem

 

 

 



[1] Neste trabalho, o termo “inventário” refere-se a qualquer descrição detalhada, minuciosa, de algo.



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